sábado, 3 de novembro de 2007

HOJE UM POEMA...

Malangatana Valente Ngwenya
(Moçambique)


Pensar alto


Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar



fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra



mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer



mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor



enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo."

(22.1.1986)

5 comentários:

Rodolfo N disse...

Que hermoso, Laurentina...
Que hermoso.
Besos llenos de color

Meg disse...

Malangatana, que eu conheci antes de ser "o Malangatana", de quem tenho alguns trabalhos que guardo religiosamente.
E revivemos memórias africanas, ambas, neste Portugal tão "pequenino"...

Um abraço para ti!

Laurentina disse...

E que memórias Meg, que memórias... até doi!!!

Beijão grande para ti.

Anónimo disse...

Memorias de todos nós ...


Cumpri.

Lopes da Silva

Laurentina disse...

Olá Rodolfo , sempre tão amavel nas palavras.
Beijão grande para ti