terça-feira, 4 de dezembro de 2007

LEIAM ISTO E DIVULGUEM POR TODA A PARTE ...

Por "António Barreto"

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente.
Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida.
Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações.
Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios.
Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí.
Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão.
Ninguém, deste velho mundo, sobrará.
Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.
Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou!
É proibido jogar! Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido. Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente.
E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.

«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007"

Laurentina-Na Babilogália deste Tuguistão...

22 comentários:

Diogo disse...

A «ASAE» também quer por a internet na ordem. Há quem lhe chame censura.

Zé Povinho disse...

Tudo à medida de Belmiros e quejandos, como está à vista.
Os pequenos que se lixem.
Abraço do Zé

SILÊNCIO CULPADO disse...

Olá Laurentina
Bom post com aquela denúncia à maneira. Num país com o desemprego a subir cortam-se as pernas aos pobres que pretendem ganhar a vida com um negociozito honesto. PObre não tem direito à vida no Portugal de hoje.
Mas nós não nos calaremos Laurentina.
Olha eu acabo de criar um blogue só destinado a "gritos" e causas.Chama-se SOL POENTE. Gostava que aceitasses o meu convite para fazermos parceria. Vou estender o convite à Amigona e à São. Gostava muito que aceitasses. Não vai dar muito trabalho porque inclusive poderemos pôr posts repetidos mas que justicam uma maior visibilidade.Se aceitares diz-me algo para: raviolly1@aeiou.pt

aDesenhar disse...

A - Assaltar
S - Sem
A - Avisar
E - É o que está a dar

Os deuses devem estar loucos
ou
somos nós que não entendemos.
mas
a panela vai rebentar!

:-)
bjs

esquisso:aquela da ASAE saiu-me na hora, haja alguém que invente outra.

Isabel Filipe disse...

já tinha lido ... noutro blog ...
sabes a minha opinião sobre a Asae....

____________

ADOREI o comentário do Adesenhar.

____________


bjs

s.ibéria disse...

Eu já tinha lido isto e estranhamente voltei a ler tudo agora, do princípio ao fim, na vã esperança de não ter lido bem da primeira vez. Mas afinal parece que é mesmo assim. O que esta cambada de gente que supostamente devia governar merecia era que nos pusessemos todos a marchar daqui para fora e deixá-los aqui a eles a cultivarem as batatas que depois não podiam vender em lado nenhum e a beber cafés em copos de plástico (yuck!). Enquanto não vamos embora era obrigá-los a eles a escreverem numa etiqueta a data e a hora em que nos infernizam a vida.E a temperatura das arcas deve ser medida três vezes por dia porquê? Para o caso de a arca se enrolar com o frigorífico evitar ficar grávida? Quanto às colheres de pau e rolos da massa de madeira isso acho bem. A esses não os quero na cozinha mas sim à mão de semear quando me derem um café num copo de plástico.O pior é que mesmo sem ela no bolo-rei a fava sai sempre aos mesmos. Beijocas.

Jorge P. Guedes disse...

Li tudo direitinho e de fio a pavio!

Mas acho que o António Barreto não quis assustar-nos. É que não referiu que :
- nascer fora de Março, Abril ou Maio? Proibido.
- morrer fora de Outubro, Novembro ou Dezembro? Proibido.
- olhos que não sejam azuis carecem de uma licença especial para portadores de olhos de outra cor, aobter junto da Direcção Geral da Beleza e Elegância, onde se poderá igualmente concorrer a uma bolsa de numerus clausus para a permissão da existência de feios, gordos, estrábicos, marrecos, mancos, surdos e mudos, pretos, amarelos, macilentos,...
e mais...e mais..e mais...e mais.

Por uma Europa linda e unívoca (ou seja, a uma voz)

Que lindos robots seremos, então não?

Abraço

C Valente disse...

Os tentaculos do polvo destes poderosos, que lentamente v�o destruindo tudo e todos , como o polvo deitam tinta para os olhos e n�s vamos na onda. A ASEA que come�ou por ser uma coisa boa, transformou-se num montro, a velha hist�ria, d�-se-he a m�o querem tudo eleis cegas e sem nexo) ajudam
Este � um bom artigo e de quem vem ainda melhor
Sauda�es amigas
PS. deixei um convite simples

amigona avó e a neta princesa disse...

Que dizer amiga, que dizer destes senhores que querem comandar as nossas vidas a troco do poder do grande capital?!!! A autenticidade desaparece em nome duma suposta defesa do consumidor!!!
Não me lixem! (desculpa!)Uma coisa é defender, outra é EXAGERAR!!!

C Valente disse...

Agradeço a colaboração, acrescentei algumas palvras para melhor definir a ideia,
Saudações amigas com um beijo

Anónimo disse...

...no dia em que entrarem nas nossas casas a dentro, há outra Revolução.

Beijão!

Laurentina disse...

Diogo,
Ai quer por a Internet na ordem?
E à ordem de quem?
Qualquer dia começam a vir á casa do pessoal ver como cagamos...ou como fazemos a nossa higiene pessoal.
Porraaaa

Beijão grande

Laurentina disse...

Ai Zé as coisas agora já não teem gosto.
Havia exageros?
Havia... e agora eles não exageram?!
Irra

beijão grande

Laurentina disse...

Silêncio,
Convite aceite desde já.

Tá visto que os pequenos não podem sobreviver...não entendo para que servem os micro-créditos!!!

Beijão grande

Laurentina disse...

Adesenhar,
Eheheheheheheh, adorei a tua definição de ASAE...
Boa

A panela vai rebentar quando não houver nada la dentro!!

Beijão grande

Laurentina disse...

Oh Isabel eu sei sim a tua opinião sobre a ASAE que é igualzinha à minha.
Estes gajos tiram-nos do sério gaita.

Beijão grande

Laurentina disse...

Nitpicker,

Não acredito que tu ainda tens vãs esperanças!!!!

Tás tola menina com esta tropa malvada as esperanças foram todas pelo cano de esgoto.

Qualquer dia começam a vir às nossas casa recolher as fezes para anlizar o que comemos e posteriormente pagarmos impostos sobre isso...


Não ha pachorra!!!

Beijão grande

Laurentina disse...

Mocho,

Sim só falta ligarem-nos à corrente alterna...


Beijão grande

Laurentina disse...

C.Valente,

A ASAE foi uma boa coisa realmente quando veio para o terreno fiscalizar a badalhoquice que por ai proliferava...só que depois como tudo neste país tomou proporções desmedidas.

Isto é um país de abusos

Beijão grande

Laurentina disse...

Amigona,

O que é demais é erro.
Beijão grande

Laurentina disse...

C.Valente

Obrigada e entendido.
Não me esquecerei na semana do Natal fazer o que sugeriste.

Beijão grande

Laurentina disse...

Sulista,

Caraças...aí já se vai tarde!
Tem que ser muito antes.

Beijão grande